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quarta-feira, maio 13, 2009

O projeto Serra 2010 e a denúncia da Veja contra Yeda Cruisius

Por bom tempo a revista Veja protegeu a governadora do Rio Grande do Sul. Mesmo com as evidências do seu desastroso desgoverno, na edição 2092, de 24 de dezembro de 2008, a Veja produziu matéria elogiando a governadora. Sob o título “A casa está em ordem”, a revista ignora as denúncias e elogia a administração Yeda. Naquela época, o país todo já sabia das graves denúncias contra Yeda. O vice-governador, Paulo Feijó (DEM) mostrou ao país gravações contendo desvios para financiar deputados aliados, bem como desvios no DETRAN (44 milhões) e BANRISUL. Mas isso não incomodava a Veja, que seguia na defesa da governadora. O que mudou de lá para cá?
A verdade é que Yeda é um governo que já foi liquidado politicamente. As pesquisas para 2010 mostram o ministro Tarso Genro (PT) na frente, seguido do peemedebista José Fogaça, prefeito de Porto Alegre. Não adiantava insistir na tecla, Yeda não se salvava. A revista mudou de tática, mas não mudou de lado. Produziu uma matéria leve, pela gravidade das denúncias, mas suficiente para enterrar de vez o governo Yeda. Assim, a revista volta a posar de independência, mas é jogada política para eleger Serra 2010. Não tenham dúvida que o projeto de Serra continua de pé.
Yeda era empecilho para o PSDB no Estado, pois pretendia disputar reeleição. Serra teria que dividir o palanque ao lado de uma governadora manca, que mostrou ao Rio Grande do Sul o estilo tucano de governar: corrupção, privatismo e baixo investimento social. E pelo visto, não é um estilo aprovado pela população. Não é por acaso que as lideranças nacionais do PSDB logo trataram de abandonar Yeda, deixando-a sozinha na difícil tarefa de se defender. Ninguém quer colar sua imagem nela. Serra que o diga.
Assim, a Veja liquida a governadora e dá espaço para as articulações do PSDB nacional em torno da candidatura de José Fogaça (PMDB). Em vez de uma candidata impopular, Serra passa a ter um forte candidato no palanque estadual. Fogaça talvez seja o único que pode unir grande parte da classe política do Rio Grande do Sul contra o PT, de Tarso Genro. É a candidatura anti-PT, pois eles hoje estão todos no governo Yeda, mas a roupagem muda. Serra fortalece no Estado. É uma ironia que o partido precise sacrificar sua única governadora para fortalecer seu candidato presidencial no Estado. A revista Veja faz o serviço sujo ao grão-tucanato.

Nota 1: Enquanto o PT bate-cabeça, o PSDB já articula com Fogaça. O PT nacional dá sinais de que entregaria de bandeja o governo gaúcho para o PMDB, em troca de apoio à candidatura Dilma. Serra, nesse caso, ficaria enfraquecido no Rio Grande do Sul. Mas o que parece é que o PMDB não quer o PT, prefere o PSDB de Yeda. Afinal, precisaria dividir mais o poder. Desde já o PT deveria colar Yeda no PMDB, desgastando o principal partido de sustentação do seu governo, mas essa atitude poderia atrapalhar o plano de aliança nacional com o partido. Desse jeito, o PMDB se fortalece, aproveitando-se das fraquezas do PT e PSDB.

Nota 2: Para o cidadão comum fica difícil explicar porque se mantém no cargo a governadora gaúcha, com tantas denúncias de desvios para campanha eleitoral, além de desvios com outras finalidades, enquanto cassa o governador do Maranhão com provas testemunhais e suposto abuso de poder contra a candidata filha de Sarney.

terça-feira, fevereiro 10, 2009

Aécio-Pimentel: Entrevista do ex-prefeito à revista Veja sinaliza rompimento da aliança

A entrevista de Fernando Pimentel (PT) na revista Veja pode chancelar o divórcio de uma aliança política que nunca houve de fato, apenas serviu para entregar ao PSDB de Aécio o controle sobre a prefeitura de Belo Horizonte. Os apoiadores de Pimentel construíram uma aliança com Aécio para dividir o comando da capital mineira com o PSDB de Aécio e o PT ligado à Pimentel e Virgílio Guimarães, desbancando da prefeitura políticos ligados aos ministros Patrus Ananias e Luís Dulci. O argumento era de que o governador retribuiria o apoio à Pimentel para o governo estadual. A historinha é mais que conhecida. Quem acredita em contos de fada, duendes e nos políticos, não custa nada também acreditar nesse lenga-lenga. 
Aécio Neves (PSDB) vem promovendo a candidatura de seu vice-governador, Antônio Anastásia, que tem se exposto pelo interior de Minas. Só faltava uma desculpa para romper politicamente com o ex-prefeito. A desculpa veio na entrevista de Pimentel à Veja. De fato, Pimentel foi afoito ao dizer que Aécio era carta fora do baralho na sucessão de Lula pelo PSDB. É claro que Pimentel fez uma constatação, só que vindo de um aliado das últimas eleições municipais não soou bem. O ex-prefeito de Belo Horizonte tem se especializado na traição. Antes, traiu Patrus Ananias, este que o levou para a prefeitura de Belo Horizonte, e depois apoiou seu nome para vice de Célio de Castro. Assim, Pimentel chegou ao comando da prefeitura. Todavia, Pimentel preferiu seguir por outros caminhos, abandonando Patrus e os aliados tradicionais da administração municipal, como PC do B e PMDB. Preferiu aliar aos adversários, jogando para o escanteio seus aliados. É assim mesmo. Pimentel experimenta do próprio veneno. Segue uma reportagem publicada no Estado de Minas.   
Declaração provoca racha entre Pimentel e PSDB
Depois de caminharem de mãos dadas para eleger o prefeito de Belo Horizonte, Márcio Lacerda (PSB), o ex-prefeito da capital Fernando Pimentel (PT) e o governador Aécio Neves (PSDB) estão praticamente de caneta em punho para assinar o divórcio político. O motivo foi a declaração dada por Pimentel no fim de semana de que Aécio não será o candidato dos tucanos à Presidência da República em 2010, e que o governador de São Paulo, José Serra, disputará o cargo pelo partido no ano que vem. 
O posicionamento de Pimentel jogou folhas para o alto no ninho tucano. O secretário-geral nacional do partido, deputado federal Rodrigo de Castro, disse que o ex-prefeito demonstrou completo desconhecimento do que ocorre no PSDB. "Essa não é a realidade do partido. Há a garantia de que Aécio pode ser posicionar como pré-candidato dentro da legenda e que, até o momento, não há nenhuma definição em relação a quem disputará o cargo pelo partido em 2010", declarou.  
O parlamentar acrescentou que, "para uma pessoa que quer ter vôo mais alto no estado, Pimentel está na contramão inclusive do sentimento dos mineiros, que, segundo pesquisas, querem ver Aécio na presidência", disse Rodrigo de Castro. 
O parlamentar afirma que a tendência é a realização de prévias para definição do candidato e que a escolha interna só não ocorrerá se houver um acordo entre os dois pré-candidatos. "No cenário atual, o que existe é que ambos estão muito animados com a possibilidade de concorrer", afirmou. 
Em meio às reações tucanas, um correligionário do governador com cargo no alto escalão do partido disse que Pimentel, ao se referir dessa forma a Aécio, quis mostrar serviço. "O ex-prefeito quer espaço no governo federal. Tudo bem, mas não precisa ganhar ponto lá detonando aqui", analisou. Pimentel é cotado para assumir posto em Brasília. Uma das possibilidades é a secretaria-executiva do Conselho Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (CNDES). 
Para o primeiro-secretário da Câmara dos Deputados, Rafael Guerra (PSDB-MG), Pimentel "passou o carro na frente dos bois" ao opinar sobre o destino político do governador. O parlamentar disse ainda que as declarações do petista sinalizam ser de alguém que "precisa se aproximar do PT para ter um cargo no governo federal". O tucano afirmou também que Pimentel "não decide espaço no PSDB.

sexta-feira, setembro 05, 2008

Um debate importante

Do Blog Óleo do Diabo

Miguel Rosário

O jornalista Luiz Carlos Azenha publicou esta semana um artigo na seção de opinião de seu site, VioMundo, que despertou uma saudável polêmica. O título do texto é "Lula: não há principio que não seja negociável", e, na sua essência, faz algumas afirmações controversas sobre o ex-operário e sobre política em geral. Eis um trecho:

Eu fico sinceramente sentido pelos internautas e pelas gotas de suor imaginário que os vejo verter diante dos computadores em defesa do governo Lula e do presidente da República. Outros o fazem em defesa da qualidade da informação, da justiça social ou de alguma outra causa realmente nobre.

Talvez minha longa carreira no Jornalismo tenha me transformado num cínico profissional. Eu sinto sinceramente por gente como o blogueiro Eduardo Guimarães, que além de tantos afazeres e tarefas complicadas que enfrenta na luta pela sobrevivência ainda encontra tempo, disposição e vontade para uma luta desigual e desgastante.

Eu leio os protestos desesperados de internautas sobre o fato de que o governo Lula mandou representantes ao aniversário da revista "Veja", aquela que sempre quis derrubar o governo Lula. Fico sinceramente surpreso ao descobrir que tem gente que desconhece como é o mundo da política. Infelizmente não é bonito, principalmente visto por dentro -- como já tive a oportunidade de ver, profissionalmente. Sob risco de ser espancado, repito o que já escrevi anteriormente: Lula só pensa em 2014. Ele fez e fará qualquer negócio para retornar ao poder em 2014. Se para voltar ao poder o Lula tiver que beijar o Civita na boca ele o fará. Aliás, não o fará pelo absoluto desprezo que Civita e a turma dele sentem pelo Lula.

As palavras de Azenha não surpreenderam a ninguém, visto que o mesmo, assim como Paulo Henrique Amorim, faz o estilo jornalista inteligente-e-debochado, mas de esquerda. No entanto, o texto produziu uma verdadeira avalanche de opiniões contrárias, muitas escritas com impressionante lucidez. Eis uma delas:

"O Lula estava lá, toda a gente, todo o grupo dos operários do ABC estava lá. As discussões eram muito acaloradas. Num certo dia, houve um longo debate e honestamente não me lembro mais qual era questão, mas recordo-me do ritmo que tomou. Alguns queriam que aquilo fosse resolvido de hoje para amanhã, outros queriam que a solução fosse naquele dia mesmo e não amanhã. E alguns defendiam que se desse na semana que vem. O Lula, então, fez a seguinte observação, que guardo até hoje: 'vocês (para os intelectuais) parecem não levar em consideração aquilo que é próprio da classe trabalhadora. Nós temos muita paciência, nós temos uma paciência histórica, a gente sabe que de hoje para amanhã tem uma noite no meio e essa noite pode fazer com que de hoje para amanhã tudo tenha mudado. A gente precisa ter muita paciência, ir muito devagar'. Nunca me esqueci disso, porque na hora eu pensei, é isso mesmo. Intelectual de classe média é imediatista e acha que as coisas acontecem da noite para o dia. Quem tem a história de classe junto com ele e vem dessa história de fato precisa ter construído o que construiu com uma enorme paciência" Mais (entrevista com M. Chauí) em:
http://www.revistaforum.com.br/sitefinal/EdicaoNoticiaIntegra.asp?id_artigo=541



Muitos comentaristas afirmaram que estão plenamente conscientes das mazelas e contradições do poder, mas que defendem Lula porque acreditam que ele representaria uma direção original, um caminho positivo para o país.

Eu também gostaria de tecer algumas considerações sobre o artigo de Azenha. Em primeiro lugar, acho que há um ponto problemático, porque Azenha não ataca somente o governo Lula, mas sobretudo a própria participação política. De uma forma elegante, diria até mesmo carinhosa, Azenha ridiculariza os que defendem o governo Lula ou defendem qualquer político, porque estes só pensariam no poder.

No afâ de apontar ingenuidades nos outros, Azenha mergulhou no próprio centro da ingenuidade. Conheço bem sua posição, é muito comum no Rio e nas hostes esquerdistas. Eu chamo de brizolismo. É um brizolismo janota, despreocupado, sarcástico e, muitas vezes, tristemente cínico. Mas esse janotismo e sarcasmo e cinismo são, na maioria das vezes, apenas uma capa psicológica, ideológica e profissional. Psicológica para passar a idéia de valentia, de macheza política, atributos que, definitivamente, faltariam a Lula. Ideológica porque se coloca à esquerda do governo Lula, o que significa, no esquerdismo clássico, uma posição moral mais graduada. Profissional porque se criou no Brasil, para o jornalismo, determinados dogmas anti-políticos, solidificados ao longo de tantas ditaduras (Império, Vargas, militares) e crises políticas.

Compreendo perfeitamente que se usem essas capas. Todos nós precisamos delas, o tempo todo. Mas às vezes nos enrolamos tanto nelas que ficamos sufocados. E vejo uma discreta, mas irremediável, contaminação lacerdista nas idéias de Azenha. Ele culpabiliza Lula por pensar em 2014. Vários leitores responderam: e daí? Certamente, ele pensa no futuro. Mas acho presunçoso estar tão seguro do que se passa na cabeça de outrem. Lula, com a popularidade alcançada, pode pleitear o cargo que desejar: senador, por exemplo. Ele diz que Lula beijaria na boca de Civita (dono da Veja) para ser presidente em 2014. Ora, é uma metáfora tola e chauvinista. Em primeiro lugar, não é Lula que tem raiva de Civita. É o contrário. Nesses anos todos, com exceção de uma oportunidade (quando houve a matéria sobre as contas falsas no exterior, pateticamente negada pela própria fonte da matéria, que foi... Daniel Dantas), Lula nunca agrediu a Veja. A Veja é que vem agredindo o presidente sistematicamente. Portanto, se fosse o caso de que tal beijo ocorresse, nosso espanto maior seria que Civita aceitasse e não a oferta labial de Lula.

Há também o desconhecimento da história de Lula. Criado nas batalhas sindicais, Lula certamente teve que enfrentar inúmeros Civitas e patrões, e nunca caiu na esparrela estéril e adolescente da esquerda rancorosa e isolacionista. Aconselho Azenha a rever "Eles não usam black tie", o belíssimo filme de Gianfrancesco Guarnieri. Todos esses dilemas estão ali. Azenha parece se alinhar a um dos personagens do filme, um trabalhador ansioso e acusativo, que aos poucos se vai mostrando uma figura extremamente negativa e mesmo perigosa para o movimento sindical.

Uma luta não é feita somente de ataques, mas de recuos e avanços estratégicos. Azenha recorta um momento de recuo e infere dali uma derrota moral. Mas a avaliação precisa ser mais abrangente. É preciso ver as coisas do alto, de uma perspectiva histórica. Um bom jornalista precisa ter números. Precisa ser mais cientista e menos... político. Tenho a impressão que há um segmento da opinião pública, mesmo na esquerda, que recusa, por indolência, a análise econômica. E questão econômica é fundamental.

Sobre a questão política propriamente dita. O governo mandou representantes para o aniversário da Veja. Esse fato também me irritou. Mas depois eu pensei. Bem, ao menos o Lula não foi. Seguramente foi convidado e se negou a ir. Quanto a ida de ministros, seria sensato recusar peremptoriamente? Os chineses devem ter alguma frase do tipo: se não pode vencer o tigre, nem amansá-lo, não o perca de vista. Afinal, não deixa de ser irônico que a Veja, depois de tantos ataques vis ao governo, seja obrigada a, no aniversário de seus quarenta anos, estender o tapete vermelho para os representantes deste governo. Sim, porque eles foram os convidados principais. Não deixa de ser, portanto, uma tentativa da Veja se manter viva. O certo seria não ir? Ora, a Veja recebe milhões de propaganda oficial - porque o governo é obrigado, por lei, a anunciar em todas as publicações de grande circulação, sem poder escolher uma ou outra. Então, a Veja é um pouco nossa também. É um pouco do governo.

Chávez fechou um canal de tv na Venezuela. Os donos desse canal participaram do golpe contra ele. É um caso diferente. Mesmo assim, o dano político à imagem de Chávez foi enorme. Os atuais brizolistas admiram Chávez. Eu não admiro Chávez. Acho que ele é um cara importante para a Venezuela e para a América Latina e compreendo que suas atitudes se deram num contexto de radicalização que ainda não experimentamos aqui. Mas eu assisti programas de tv em que Chávez desafia, de maneira absolutamente leviana e irresponsável, o Pentágono americano para um duelo militar. Claro que é uma bravata. Mas é um infantilismo tão tosco e perigoso. Uma atitude que nunca, nunca, o Lula faria. O Lula é, para dizer o mínimo, um cara adulto.

Na verdade, Azenha não compreendeu que a defesa do governo Lula não supõe nenhuma ingenuidade. Mesmo entre os que fazem uma defesa apaixonada. Trata-se, tão somente, de participação política. Afinal, de que forma participar politicamente? Defendendo socialismo? Defendendo esquerda ou direita? Ora, isso é abstrato. O brasileiro - assim como Lula - é pragmático. Não vamos ficar perdendo nosso tempo especulando se Lula se inclinou aqui ou acolá para esquerda ou direita, como se estivéssemos falando de uma mocinha que transou com zezinho ou joãozinho. As políticas devem ser analisadas sob perspectiva histórica, com um mínimo de distanciamento, e aí entram as pesquisas sociais e os dados econômicos. O Brasil é bastante feliz nesse ponto, porque conta com instituições muito competentes que monitoram a realidade econômica e social do país, como o IBGE e a FGV. Para mim, e para muita gente, o que importa é superar a pobreza e não saber ou não se Lula quer voltar em 2014. Lá estamos procupados em ler pensamentos alheios?

Um comentarista diz que o problema está no próprio sistema político representativo. Azenha responde, dizendo que concorda inteiramente.
Luiz Carlos Azenha (03/09/2008 - 20:10)
Advogado, acho que é por aí, mesmo. A utopia deve ser essa, a de melhorar as formas de representação. Em minha modesta opinião!

O comentário do advogado havia sido este:
advogado (03/09/2008 - 20:04)

Azenha, nós precisamos encarar os fatos. O sistema de representação política por meio do sufrágio universal, sem freios e contrapesos, não funciona, principalmente num país onde a cultura da corrupção é predominante. O que acaba acontecendo é que o sistema de seleção de candidatos é a antítese do filtro - só o que é sujo passa. Diga a verdade: que pessoa minimamente proba, em sã consciência, se candidata a um cargo político hoje, com raríssimas exceções ? Como se fazer política honesta no meio de um sem-número de ratazanas ? Quem sabe parte dos agentes políticos deviam ser escolhidos por concurso público (é isso mesmo) para fazer contrapeso aos eleitos... Quem sabe conselhos compostos por pessoas que exercessem uma carreira (carreira mesmo, como auditor fiscal, juiz, etc) de administrador público ou representante parlamentar... Talvez um poder político assim, em parte meio "tecnocrata", ajudasse... Logicamente, a primazia ainda seria do voto... Esses representantes ou administradores públicos poderiam ser afastados pelo sufrágio. O fato é que algo tem que começar a ser discutido para, quem sabe, daqui uns cinqüenta anos, se a coisa não melhorar com esse lixo de sistema que está aí, haja uma alternativa.



As sugestões do "advogado" soam bastante sensatas. Mas há um desconhecimento histórico sobre os avanços da democracia representativa brasileira. Há cinquenta anos, menos de 20% dos brasileitos votavam. Há quarenta anos, nem votavam. Hoje, mais de 80% dos brasileiros votam. Claro que há corrupção na política, mas também existem muitos políticos sérios. A leitura dos livros do Wanderley Guilherme dos Santos me fez ver as coisas com um ceticismo mais inteligente. A nossa democracia é cheia de problemas, e por isso a nossa Constituição, de certa forma, é uma obra ainda em construção. Os deputados estão lá votando as mudanças. Eu acho muito mais ingênuo se pendurar numa bandeira utópica de uma futura mudança no sistema representativo - sem prova ou indício nenhum de que essa mudança significaria alguma melhora - do que você se engajar em campanhas de apoio ou ataque aos políticos que estão aí, em carne e osso, eleitos pelo povo e que podem, para o mal ou para bem, fazer alguma coisa.

E aí, por fim, entram as ilações de sempre. O pano de fundo do desencanto travestido de cinismo bem-humorado de Azenha é o caso Dantas. Mais uma vez, a mídia conseguiu fazer o Brasil esquecer que quem soltou Dantas não foi Lula. Lula prendeu Dantas. Quem soltou Dantas foi o Gilmar Mendes, presidente do Supremo Tribunal Federal.

Se Lula não quisesse pegar Dantas, ele simplesmente não o prendia, não recolhia maletas e computadores de seus escritórios. Não fazia nada. Não é lógico. E aí temos esse afastamento do Paulo Lacerda, da Abin. Já escrevi sobre isso. O presidente do STF, o presidente do Senado, com apoio de todos os ministros do primeiro e vários senadores do segundo, pediram atitude enérgica do presidente. Eles estavam errados? Não importa. Eles representam a máxima instância da Justiça brasileira e a máxima do Legislativo e, segundo o princípio democrático dos três poderes, eles possuem tanto poder quanto Lula. Portanto, se o presidente do STF e o presidente do Senado pedem uma atitude enérgica de Lula, ele tem a obrigação de tomá-la. Mesmo que esses estejam influenciados por uma matéria tendenciosa da Veja. Não importa. Em caso contrário, Lula estaria sendo anti-democrático, anti-republicano, estaria sendo imprudente e, portanto, incompetente enquanto político.

Não é o caso de acusar Paulo Lacerda sem provas. O caso é que há indícios de que há vazamentos constantes de gravações da PF e da Abin, e Lacerda não conseguiu identificar de onde partem esses vazamentos. Há um "garganta profunda", um traidor, ou vários, infiltrados na PF e na Abin, e é função da Abin pegar esses caras.

E aí Lula nomeia o tão Trezza para chefe da Abin e as vozes se alevantam dizendo que é "homem de Dantas". Mais ilações. Ele trabalhou para uma das milhares de empresas de Dantas. Mas não teve contato com ele e saiu da empresa brigado com Dantas. Se todo empregado que trabalhasse numa empresa estivesse agora eternamente ligado a seu ex-patrão, o mundo acabava. Ele pode até ser um cara comprado por Dantas. Mas aí qualquer um podia ser, e não somente por ter trabalhado numa empresa de Dantas. Dantas pode comprar qualquer um. O fato de ter trabalhado numa empresa de Dantas, ao contrário, pode ser um ponto positivo, pode sugerir que ele conhece bem o atual adversário número 1 do governo.

No entanto, é forçoso admitir que o tal Dantas é mesmo tão poderoso como se dizia. As reviravoltas que assistimos, o apoio na mídia com que ainda conta, a força que possui junto a juízes do supremo e parlamentares, tudo é impressionante. Mas não percamos a perspectiva de que ele foi preso, seus documentos e computadores foram apreendidos, inclusive um computador escondido dentro de uma parede. Ele teve prejuízo de bilhões de reais com essa operação. Ele foi preso, repito. E não foi o Lula que soltou...